Certezas

Publicado em por Diego Lopes

Não tenha pressa de ter certeza. Antes, pondere para que não mate a esperança de você, em si mesmo, elevando, por consequência equivocada, à esfera da fé, mero ideal; e somente depois de concretizado o ideal pensará que finalmente haverá circunstância e tempo para escutar e colaborar, na medida do possível, com cada necessidade e conflito humano, que se revela de modo sempre peculiar, embalde na essência, no silêncio, identificarmo-nos com os mesmos paradoxos e dúvidas.

É próprio da juventude buscar a certeza, porque se quer, ansiosamente, solucionar enigmas humanos que se pensa poderem ser solucionados de modo ora mais e ora menos sistêmico. Porque seria muito assustador imaginar a complexidade e o labor necessários que se exigiriam, de nossa boa vontade, ajudar a coletividade, de modo tão exclusivamente justo e nobre, a partir da ação individual de cada qual.

Não tenha pressa de buscar certezas precocemente, porque suas certezas tornar-se-ão atalhos intelectuais, donde passará a defender, sobretudo, a ideia antes do homem. Quando não se honra a verdade pregada com a prática, o homem propalador fervoroso de ideias, aí, deveras, revela-se mero produto do meio, e não o senhor que modifica a condução, em piloto automático, do presente para não se tornar escravo de suas loucuras e perversidades de hoje, em vão muito presunçosamente certas.

Não tenha pressa de ter certeza, sob pena de se tornar tal como uma pássara-cuco cujos ovos são por ela lançados em ninhos outros, para que outros pássaros os choquem pensando que seriam seus. Porque todo líder pensa ser, em parte, original, se não na fonte, no método, ensejando-lhe de direito seguidores com aplausos, os quais por sua vez, passam a chocar ovos que pensam que são seus, mas não o são.

A dúvida como norte não chancela, jamais, a certeza duma relatividade absoluta, mas que, na verdade, alerta-nos da necessidade de falar menos e escutar mais; pensar menos e agir mais; porque apenas praticando sob a própria pele aquilo que entendemos de correto para o outro é que poderíamos passar a estar menos enganados a respeito de certezas que, certamente, só poderiam ter saído de um conto de fadas absurdo. A dúvida afasta o otimismo inescrupuloso, bem como o pessimismo perverso

Coragem não é valentia, mas é uma maturidade mínima que se alcança, na compreensão da vivência humana, por meio da qual em que pese, a cada segundo, a sociedade exigir-me certezas de como melhor instrumentalizar o ser humano, abstenho-me dessa ansiedade louca, suporto o escárnio alheio e lido com o paradoxo de que com a mesma língua que muitos alegam saborear mel, estão expelindo fogo contra o próximo de forma impiedosa.

Por Diego Lopes.

Círculo Liberal | Curitiba | 2017