Multicultarismo à canetada: laços de confiança ou falsa esperança?

Publicado em por Diego Lopes

O desprezo da razão de se ter uma nação cujos valores a delimitam, dentre outras nações, levará à decadência de sua soberania e, por sua vez, à extinção do próprio povo, seja por meio do genocídio, seja por meio da escravização (de culturas religiosa ou étnica), seja por meio da impossibilidade de nela poder se expressar, à vontade, os sentimentos históricos que a constituiu - sob pena de ser admoestado o manifestante, moralmente (quando não, legalmente), de constranger hábitos estranhos e alienígenas.

Existe a ideia contemporânea e perene de que as nações podem abrir as fronteiras por um ato de amor e generosidade. As nações, inclusive, podem formar, ao bel-prazer da escolha exclusiva da classe política, confederações supranacionais, comunidades internacionais, por um sentimento de generosidade com o fito de ampliar a liberdade dos cidadãos, aumentando-se-lhes a qualidade de vida. Esse anúncio publicitário é fruto de uma geração que, certamente, esqueceu-se, por completo, dos sacrifícios e renúncias envolvidos para qualquer grupo social criar e manter laços de confiança.

Posto que somos indivíduos condenados a viver em sociedade para, justamente, poder desfrutar de maior liberdade e melhor qualidade de vida, eu dependo do conhecimento a respeito do outro, de seus antecedentes vários, para poder dispor de meus recursos escassos (econômicos e não econômicos), preservando e multiplicando-os. Daí que os grupos sociais não são exitosamente mantidos do topo político. O topo político os cria, mas o tempo os rui. Justificativas de grupos sociais não foram nem jamais serão frutos da assinatura de um contrato social fictício (por exemplo: uma constituição escrita ou não) que simbolize no imaginário a anuência de todos os automaticamente membros em renunciar parte de seu poder individual em prol de uma entidade coletiva soberana e estranha em face dos então indivíduos, cujas ligações se davam e continuarão a se dar estritamente pelos laços de confiança.

As sociedades nascem de relações individuais demarcadas pelo histórico de confiança, surgindo-se laços de confiança e modificando-se estes, mais ou menos lentamente (a depender dos avanços tecnológicos e necessidades econômicas de cada época), com o passar de décadas e séculos; e morrem asfixiadas com nós de falso otimismo em vez de laços de confiança, por escolhas ditatoriais, que podem se dar quer em regimes democráticos, quer em regimes ditatoriais, sendo estúltimos a resultar em nós evidente e necessariamente.

Dado que o tempo e os recursos econômicos são escassos; e desses dois elementos dependemos para a sobrevivência da espécie humana, dispor parte desses elementos em razão de acreditarmos que outros poderão fazê-lo melhor, contribuindo com as vantagens comparativas de cada qual, bem como se fomentando a especialização de tarefas, tal implica na confiança naquele a quem dispostos nossos recursos escassos em troca de compartilhamento dos êxitos obtidos. Daí que, pois, repisa-se o óbvio desprezado, as comunidades formam-se mediante laços de confiança e jamais mediante a assinatura de burocratas de uma falsa intenção dita como boa. Burocratas poderiam, no máximo, reconhecer tradições de confiança.

Por exemplo: É fato notório e público as relações de confiança que existem entre Canadá e Estados Unidos; são países que partilham da mesma língua (inglês, além do francês canadense, à parte); seus sistemas, de um modo genérico, estão baseados no sistema capitalista de produção, guardando valores iguais ou equivalentes em suas legislações nascentes; o índice de desenvolvimento humano e a renda per capita entre os países são próximos; há todo um histórico de pacificidade e trocas mútuas de respeito entre os dois povos; caso ambos os países formassem uma comunidade bilateral supra-nacional, partindo da escolha de seus cidadãos mediante consulta popular prévia, talvez haja chances mais consistentes de referida nova comunidade ser acolhida pelo povo e meramente chancelada por burocratas. Agora, imaginemos uma formação comunitária supra-nacional entre Estados Unidos e Brasil em prol de um mundo mais generoso e amoroso. Os obstáculos são gigantescos e, portanto, para tampá-los, numa tentativa sempre ridícula, somente com justificativas ou promessas tanto quanto mais fantasiosas e ridículas. Há a barreira do idioma; há a resistência histórica, que tomou forma e força no século XX na América Latina, contra o estio americana de viver, por grande parte dos latinos; há uma diferença substancial nos sistemas de produção de cada povo; o índice de desenvolvimento humano e renda per capita entre os povos são imensos e, numa eventual liberdade de locomoção de cidadãos, haveria, de repente, uma emigração, em possíveis de dezenas de milhões, em massa, de brasileiros para os Estados Unidos, destruindo-se, neste, o equilíbrio de seus recursos escassos. Por sua vez, isto instalaria o caos no território americano e o ódio ao estrangeiro, principalmente ao estrangeiro brasileiro. É bem verdade que todos esses obstáculos podem ser postos de lado, criando-se essa fictícia comunidade, bastando a assinatura de ambos os Poderes Legislativos de cada país membro. Entretanto, as consequências caóticas não poderão ser colocadas debaixo do tapete.

Quais as consequências de eu trocar os laços de confiança nas relações sociais pelos nós da falsa esperança? Tudo dependerá da natural correspondência que há (ou não) entre os povos. Particularmente, eu penso em índices como o do desenvolvimento humano, a renda per capita, o custo de vida, o salário mínimo, o índice de desemprego, o déficit público, a predominância religiosa, o modo do sistema de produção e tendências ideológico-políticas: quanto mais esses elementos forem díspares, maiores serão as dificuldades de burocratas manter uma comunidade que, definitivamente, só se mantém pacificamente no imaginário ideológico. Vemos isto, hoje, na saída (ainda que com um resultado popular apertado) do Reino Unido na União Europeia; vemos também a enorme dificuldade de a Grécia, um país historicamente de funcionalismo público, readequar seu orçamento frente a uma política monetária cujo objetivo é a estabilidade dos preços e o desprotecionismo entre os países que partilham da mesma moeda e da dívida pública; vemos também na enorme dificuldade de países europeus, com economia tradicionalmente menos competitivas e portanto atrasadas (como Portugal, Espanha, Itália e Grécia), em readequar suas legislações e burocracia para atrair investimentos frente a uma Alemanha, a uma Irlanda, a uma Áustria que partilham da mesma moeda; isto sem falar nos países do leste europeu que, além de terem a desfavor um idioma mais distante dos latinos e do inglês, são ex-socialistas, isto é, a infraestrutura pública e o capital acumulado são inferiores aos países europeus do mais ao oeste; recentemente, teve-se o caso da Polônia, ex-país socialista, cujo parlamento aprovou projeto de lei que daria poderes ao Executivo de demitir os juízes, deliberadamente, de qualquer instância judiciária, bem como dando a possibilidade de o Executivo nomear os juízes que lhe aprouver. A União Europeia ameaçou suspender a Polônia, caso o Executivo sancionasse tal lei. Por sorte, após muita advertência de vários países ocidentais, o Executivo polonês vetou a lei.

Além disto, não poderia faltar a questão de que a criação de novas instituições supra-nacionais implica na renúncia de elementos soberanos em prol de nova instituição de hierarquia mais elevada. Certamente que a renúncia mais polêmica da União Europeia, a servir de alerta vermelho para outros blocos econômicos que pretendem seguir o mesmo trilho, é de os Estados Nações já não terem controle, mediante leis próprias, de quem pode entrar, deve sair e pode ficar no território. Em épocas que não há calamidades públicas, tudo tende a correr maravilhosamente bem. Mas como tempos dourados tendem a ser parcos na história da humanidade, são nos momentos de escolhas e renúncias difíceis que vemos se a proposta advinda do ideal tem êxito no dia a dia. É patente que, no caso da União Europeia, a sensação de que existe um frouxamento por parte dos Estados Nações em poder decidir quem pode permanecer em seus territórios está a levar os cidadãos de cada país membro a desconfiar negativamente de o que vem a ser a máquina União Europeia sobre a segurança de cada indivíduos: A promessa de laços de confiança ou um nó de falsa esperança?

Se for um nó de falsa esperança, os Estados Nações serão asfixiados por leis que subjugarão as tradições e valores com as quais se formaram. E por quê? Por que novos valores e tradições terão prevalência em nome do exercício democrático. Essa democracia é a maioria e a maioria já não são os cidadãos do Estado-Nação ex-soberano, mas uma supra-entidade estranha, alienígena, outsider, com o fito de criar novas fundos para as suas personagens, independentemente da anuência destas, que lá já se encontravam, desfrutando de bens e valores resultantes de décadas e séculos de laços de trabalho e confiança mútuos.

Por Diego Lopes

Círculo Liberal | Curitiba | 2017