Necessidade e os dois Sistemas de Pensamentos

Publicado em por Bruno C. S. Nader

Já dizia Agostinho de Hipona : “Crer primeiro que o intelecto segue o resto”. Há por de trás desse pensamento um mecanismo mental que funciona da seguinte maneira: primeiro se tem uma necessidade/vontade que esta alocado no futuro, tal fato obriga a inteligência(razão especulativa) a desenvolver estratégias a fim de colocar a inteligência (razão prática) para alcançar meios materiais por meio dos quais será possível com que este se satisfaça. Nesse mecanismo o intelecto (espírito/nous) precede a razão operatória(razão prática), pois cabe a ele extrair da realidade os dados sensíveis necessários a serem operados visando um fim determinado, concebido em algum momento do tempo (kronos). Pode-se dizer que a consciência equipara-se a um “radar” que tem por função decodificar na matriz da realidade os problemas, enquanto a razão especulativa se emprega na construção lógica de meios que possibilitem que o problema ou a solução seja realizável no mundo dos fatos. Assim segue uma sequência: a consciência detecta, o intelecto analisa as possibilidades e desenvolve estratégias, e por fim, a ação premeditada fecha o ciclo do processo manifestando-se no espaço-tempo. O sucesso da conservação corpórea ou existencial provém das consequências das escolhas: agir pela razão (razão prática no sentido aristotélico do termo) ou pelo impulso da vontade que se encontra desprovida de razão (lado dionisíaco do ser humano).

MECANISMO ESPIRITUAL ( in abstrato)

Pelo pensamento agostiniano, a fé e o esforço vêm primeiro e a concretização material em seguida. Existe em oculto neste mecanismo um princípio fundamental. O indivíduo ao buscar a satisfação de sua necessidade usando esse “modus operandi”, esse caminho/viés, faz com que seu intelecto se desenvolva obrigatoriamente em função de óbices que se encontram entre a concepção do desejo e a sua materialização. Durante esse processo que ocorrerá uma estruturação interna do intelecto dentro de um lapso temporal, uma vez prontas essas estruturas neurais não há necessidade de remonta-las. Isso ocorre porque os dendritos – parte extrema da célula nervosa- se desenvolvem em função da repetição e por meio do esforço intelectual. Alguns exemplos onde tal fenômemo ocorre: uma criança ao tentar andar de bicicleta empreende muita energia nas muitas tentativas de se alcançar o equilíbrio, período em que a formação da estrutura intelectual da criança esta sendo forjada. Uma vez possuindo domínio sobre a bicicleta não terá necessidade de empreender esforço para aprender novamente. Exemplo 2: antes de uma criança apreender a andar ela sofre várias quedas ao ponto que a cada caída ocorre um reforço, um aprimoramento mental, no ato de insistir a ficar de apé. Em ambos exemplos o fator propulsor das ações foi a vontade/necessidade decodificados pela consciência.

Consciência (função radar) --->Necessidade/Vontade ---> Intelecto (função estratégia) ---> ação (pensada, baseada na estratégia do intelecto) ---> concretização material ---> Satisfação da Necessidade/vontade.

MECANISMO MATERIALISTA

Segue o caminho inverso do mecanismo espiritual. Observado, em parte, pela luz da ótica marxista, pode-se considerar que a matéria pode influenciar a psique do homem quando este observa na matéria a base objetiva de suas necessidades. Ou seja, a “matéria pode criar necessidade”. Nesse caso não há a estruturação do intelecto, pois a concretização material veio antes da estruturação mental. Em outras palavras: quando o homem tem uma necessidade atendida deforma instantânea, esse imediatismo impede a estruturação do intelecto, pois não houve obstáculos, o que não extingue a necessidade de desenvolver estratégias e, nem de agir racionalmente, pois o único ato foi receber. É o fenômeno exato que ocorre com seres irracionais ao buscar o alívio do desconforto material de forma impulsiva. Na esfera humana, o que ilustra isso é o jargão “não de o peixe, ensine a pescar”, e aquele que aprende a pescar passará da condição de dependente a fornecedor. Por consequência terá poder para negociá-lo com quem precise do peixe. Esse pensamento explica muito sobre a superioridade econômica de países como Alemanha, Japão, EUA entre outros mais que possuem como fator elementar do sucesso econômico os valores éticos individuais acolhidos por suas populações. Basta observar que os países prósperos possuem menos - ou não possuem governos assistencialistas - mas propiciam ao povo instituições para desenvolver as potencialidade individuais, ou seja , uma política voltada ao indivíduo que reflete na ordem coletiva; a ordem micro na ordem macro, pois o Estado possuí cidadãos virtuosos.

Esquema do mecanismo materialista:

Consciência (função radar) --->ESTADO----> Necessidade suprida.

Esse mecanismo remonta o fenômeno do funcionamento psicológico da mentalidade coletivista. É um sistema que inverte a ordem: primeiro a matéria , depois a satisfação da alma com a intervenção do Estado no meio do processo. Nesse caso, a pessoa não deixa de ter consciência das vontades/necessidades, entretanto é o modo como se é resolvido o problema que se difere do mecanismo abstrato.O assistencialismo estatal, em teoria, segue a mesma linha, ou seja: pula o estado de necessidade e consequentemente mata o desenvolvimento intelectual. Não havendo ação premeditada visando um fim determinado por parte da população o Estado se encarrega de suprir o déficit logo na raiz do processo propagando um efeito imediatista levando a curto prazo qualquer nação às ruínas. Seria impossível sustentar uma nação improdutiva, a não ser que ela vivesse de economia de guerra (botim), assim como viveu Roma no seu período imperial. Cabe aqui a velha frase do economista Milton Friedman " não existe almoço grátis" o que ratifica a noção de que simplesmente um Estado não pode oferecer aquilo que não tem. Por Bruno C. S. Nader.

Círculo Liberal | Curitiba | 2017